19 setembro 2011

Rio Paraguaçu é cenário de um capítulo importante da história

 *Reportagem exibida no Globo Rural (TV Globo) do dia 07/09/2011

Por José Raimundo

De um lado, São Félix, na margem direita. Do outro, Cachoeira, cidade monumento, patrimônio nacional. O cenário histórico é palco da última etapa da viagem pelo Paraguaçu.

Boa parte da vida passa pela antiga ponte de ferro, famoso cartão postal da Bahia. Tem 365 metros e por muitas décadas era a mais importante ligação, por terra, entre o sertão e o litoral. Foi construída em um estaleiro da Inglaterra, por encomenda de Dom Pedro II.

Veio desmontada em navios e inaugurada em meados do século XIX. A ponte foi também um presente de reconhecimento do governo imperial pela bravura do povo baiano em um episódio marcante da história. As águas do Paraguaçu foram testemunhas das batalhas que consolidaram a independência do Brasil.

Hoje, Cachoeira preserva a história e com ela engorda a receita do turismo. Mas a base da economia do município vem do Paraguaçu. A quatro quilômetros da cidade, as águas do rio se espalham por um grande lago.

A represa de Pedra do Cavalo é o maior reservatório entre a nascente e a foz. A barragem foi construída para garantir o abastecimento humano e há seis anos começou a produzir energia. A principal missão da barragem é controlar a vazão da água rio abaixo, mas nas grandes enchentes, o povo do baixo Paraguaçu fica apreensivo.

Em 1988, chegou tanta água em Pedra do Cavalo, que a barragem ameaçou se romper. As comportas foram abertas e Cachoeira foi inundada, São Félix também. Foi a maior tragédia da história das duas cidades.

De acordo com as pesquisas, a população de escravos na região chegava a nove mil pessoas.

O vilarejo Engenho da Ponte foi um quilombo no passado. Escravos que fugiam das usinas de açúcar se escondiam ali.

Muito antes da escravidão, o recôncavo baiano já era uma espécie de celeiro cultural. Os baianos aprenderam, com os índios, a arte de produzir cerâmica. Em Coqueiros, distrito de Maragogipe, a comunidade ribeirinha abriga uma autêntica representante da arte de moldar o barro.

Lá se vão 80 anos de batalha. Dona Cadu hoje tem 91 e desde os 11 mexe com o barro. As peças são tão bem feitas, tão bem acabadas, que a impressão que dá é que foram polidas em um torno. Mas é só impressão mesmo, porque Dona Cadu não usa nenhum equipamento além das mãos, prá lá de habilidosas. Companhia? É só olhar pela janela e lá está ele, o seu velho amigo. O Rio Paraguaçu.

Algumas comunidades que ficam afastadas do leito do rio só saíram do isolamento graças a um meio de transporte rústico, de fabricação caseira e movido a vento. O famoso saveiro baiano.

Hoje em dia, à medida que as estradas chegam, o trabalho dos saveiristas vai diminuindo. Há 80 anos, mais de mil saveiros navegavam pelas águas. Hoje, reunindo todos eles, a frota não passa de 20.

Mas há uma esperança. Recentemente, o saveiro foi tombado como patrimônio imaterial do brasil.

E o Paraguaçu? Como cuidar desse patrimônio tão precioso?

O Inema, órgão que cuida dos rios baianos, diz que conhece os problemas da bacia do Paraguaçu e que os trechos mais ameaçados pela poluição estão nos afluentes, que não conseguem diluir a carga orgânica. Diz também que trabalha para a recuperação de matas ciliares e conscientização dos produtores.

Preservar o Paraguaçu é uma obrigação de todos que dependem dele. Não só do estado, mas também das cidades ribeirinhas, que não tratam o esgoto. Dos moradores que sujam o rio. Dos produtores, que usam a irrigação e dos turistas, que frequentam as belas paisagens do rio.



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